Balançando a rede

Desafio aceito. Escrever um texto pro blog em 90 minutos, o tempo de duração de uma partida de futebol, sem direito a acréscimos, prorrogação, ou cobrança de pênaltis. Vale substituição? Claro! Acabei de trocar pênáltis com acento no “a” por pênaltis. O técnico do google nunca erra no esquema ortográfico. Será?

Sou um desastre no futebol. Perna de pau mesmo. Não sei jogar no ataque, nem no meio de campo, nem na defesa. Nem pra goleiro ou gandula eu sirvo. Na verdade, sou daqueles que tem medo de estar caminhando calmamente em um parque ou atravessando a rua quando uma bola foge do espaço delimitado como campo de jogo e — assim como cachorro que só late pra quem tem medo de canino — vem na minha direção. Tenho ataque de pânico em ter que me aproximar do monstro redondo seja com as mãos ou com os pés. Pode isso? Até cheguei a procurar escolinha de futebol para adultos pela internet só pra descobrir que macho que não tem companhia pra jogar uma pelada no fim de semana ou é viado de academia ou simplesmente é uma pessoa sem amigos. Cartão vermelho no quesito social da humanidade.

Pois bem, imagina o sufoco que passei quando cheguei num pequeno liberal arts college em Oregon onde eu era o único brasileiro no campus. Vem pro nosso time. Sou muito ruim. O pior brasileiro é sempre melhor com uma bola nos pés que qualquer americano, foi o que ouvi no início dos anos 90. Depois do fiasco contra a Alemanha talvez eles agora pensem diferente, mas naquela época o Ronaldo ainda não tinha se vendido na final contra a França. Numa jogada digna de CR7, armei um drible que me salvou da humilhação e disse: no Brasil ou a pessoa é boa com a bola nos pés jogando futebol ou ele é boa com os pés dançando samba; o meu caso é o segundo. E foi assim que acabei indo fazer uma apresentação carnavalesca num congresso universitário com uma amiga do Panamá e outra da Costa Rica. Ainda bem que não havia nenhum brasileiro na platéia pra verificar que eu estava a anos luz da jinga que desce os morros do Macaco, da Formiga, e do Andaraí pra desfilar na Sapucaí. Gol irregular pro sambista de Caxias!

Minha falta de intimidade com a bola não significa que eu não goste de assistir ao jogo no estádio ou na televisão. Apesar de eu estar longe de ser como o meu cunhado. O cara tem 52 camisas do Flamengo, uma pra cada domingo do ano. Eu tenho camisa do Flamengo, do Corinthians, da seleção brasileira, mas também da Argentina. Ele conhece jogador pelo nome. Eu sou um fracasso vergonhoso nesse quesito. Ou seja, futebol não é necessariamente meu assunto toda segunda e quinta-feira. Eu gosto de final de campeonato, de multidão, de fazer parte daquela massa que grita e xinga, mas jamais vou ficar doente ou perder dia de trabalho por causa do “meu” time, que obviamente muda de acordo com as fases da lua, essa sim minha grande paixão. Bola na trave, eu sei.

Daí vem a Copa do Mundo. E eu fico louco! Adoro esse campeonato que dura só um mês com três jogos por dia antes do afunilamento das melhores equipes. E mergulho, ou seria mais apropriado dizer amarro(?) as chuteiras dos meus olhos na televisão pra ver todos os jogos que eu posso. Tiro minhas bandeiras da Austrália, do Uruguai, e do Marrocos do armário e torço pra ver uma partida super disputada com gols emocionantes! Tudo bem que isso só acontece a cada quatro anos, mas mano, quando rola, eu sou mais fominha de bola que jogador africano disputando sua primeira escalação. Hoje mesmo. Tô escrevendo este texto depois de ter visto Inglaterra e Panamá, Japão e Senegal, Colômbia e Polônia. Muito legal já ter posto estes meus pés em 12 dos 32 países que se classificaram pra Copa da Rússia. Informação irrelevante, admito, tipo aquela que o comentarista solta no meio da transmissão porque o jogo tá paralisado por algum motivo.

Fui olhar o cronômetro e só me restam mais 30 minutos antes do juiz apitar. Bora então armar um lance bonito pros leitores da arquibancada fazerem desse post o campeão de visualizações do meu blog. Mas peraí, já cansei de ver time mandar muito e mesmo assim perder no placar final. Então tudo bem se esta for só mais uma derrota. Fora de campo, a lista continua: não sei piscar, assobiar, ou estalar os dedos — esses mesmos dedos que agora deixam o teclado pra pegar o controle remoto e trocar de canal pra ver um programa de resenha esportiva. Bom domingo!

24 de junho de 2018. Início: 17h30. Término: 19h00.

Thanks to Ian Newby, my British friend in the VAR room, I was reminded that I also have a France jersey.

Related image

Advertisements

3 thoughts on “Balançando a rede

  1. E quem precisa dominar a bola quando você dribla a palavra, e o texto vem gingando feito samba no salão? Muita arte neste gol de placa do flamenguista de plantão, blogueiro profissa em qualquer ocasião!

    Liked by 1 person

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s